Primavera(s) de Deus

  • Explicação

    Maria, figura central da próxima Jornada Mundial da Juventude, é o primeiro sinal da Primavera de Deus, no inverno da humanidade. Como no-lo recorda o lema da JMJ, partiu “apressadamente”, porque essa Primavera, anunciada pelos profetas e ansiada pelo “povo que habitava nas trevas” (Mt 4, 16; Is 9,1) não podia mais ser adiada: tinha de contagiar outros, como mais tarde fará seu Filho Jesus, pelos caminhos da Palestina.

    Passados dois milénios, o inverno persiste (conflitos, desigualdades e injustiças). Porém, tampouco essa Primavera deixou de dar sinal de si, da sua presença atuante.

    Propomo-nos descobrir e conhecer “rostos jovens” de Deus. Jovens que foram Flores e frutos de fé, testemunhando a alegria e a paz dos filhos de Deus, em situações extremas de sofrimento ou na defesa da pureza; flores e frutos de esperança perseverante no longo inverno persecutório da fé, em tantos lugares do planeta e ao longo da história; flores e frutos de caridade que perfumaram a humanidade, na entrega das suas vidas pela dos outros, mais pobres ou vulneráveis da sociedade, em defesa da verdade e da justiça.

    São raparigas e rapazes de 4 continentes, dos séculos XX e XXI. Uns, cristãos desde o berço, outros, conversões extraordinárias, onde e quando menos era espectável. Todos morreram cedo, mas marcaram o seu tempo e seus conterrâneos, porque todos frutos maduros. Assim são as Primaveras de Deus.

    Desafiamos-vos, ao longo deste ano, a conviverem com eles: tomai-os como companheiros de vida cristã, mestres com quem aprender, amigos espirituais em quem colher inspiração e a quem orar, pois a maioria é venerável ou beatificada.

PRIMAVERA(s) de DEUS – 11

A 26 de outubro de 1953, nasceu CLAIRE de CASTELBAJAC.Claire Castelbajac IEV 1 Cópia
Esta jovem só precisou de 21 anos para descobrir o caminho da felicidade dos filhos de Deus. A causa de beatificação foi introduzida em 1986, onze anos após a sua morte, ocorrida a 22 de Janeiro de 1975.
À primeira vista, sua vida nada tem de extraordinário. Cresceu e viveu na pacata região rural de Gers, na França, antes de iniciar estudos em Roma, em restauro artístico. De temperamento jovial, atenta às necessidades dos mais desfavorecidos, Claire iluminou seu caminho com uma fé desperta e uma alegria contagiante. Mas também teve as suas dificuldades: uma saúde frágil e um período romano conturbado, no seu início. Claire, para não perder o seu rumo, regressou à sua fonte: conhecer e dar a conhecer Deus.
É isso que a torna, para todos, um modelo atraente de santidade. É nas pequenas coisas do quotidiano, felizes e dolorosas, que nos encontramos de verdade com Deus e com os outros. Como qualquer jovem, Claire foi caminhando na descoberta de si própria, no confronto com os seus sonhos e tentações. Em ambos, soube dar primazia a Deus, testemunhando ao seu redor a felicidade de se sentir amada por Ele. Dizia ela: “Eu quereria dar felicidade a todos aqueles que aproximo e semear a alegria. A pequena Teresa (Sta. Teresinha) esperava chegar ao céu para fazer felizes. Eu, quero fazê-los na terra”.
Nessa busca da felicidade dos filhos de Deus, não se poupando a nenhum esforço e sacrifício, não admira que, poucos dias antes de falecer de uma doença fulminante, confessasse à sua mãe: “Sou tão feliz que, se morresse agora, creio que iria diretamente para o céu, uma vez que o céu é o louvor a Deus e eu já estou nele”.
Claire ensina-nos que nada nos deve afastar da presença de Deus. Mais: prova-nos que mesmo sujeitos às influências e circunstâncias do nosso tempo, com os seus desafios e tentações, a santidade é possível. Inclusive, pode e deve ser um projeto de vida, desejado e concretizado por cada cristão.
Uma singela oração, escrita ainda adolescente, revela a sua preocupação em corresponder à vontade de Deus: “Jesus, diz ao nosso Pai que O adoro e que propagarei a sua glória o mais que possa; diz à nossa Mãe o quanto me esforço por imitar a sua pureza e a sua bondade; diz também ao Espírito Santo que tem de me ajudar a querer-Te cada dia mais. Obrigada e até amanhã!”
Por fim, este seu dito resume bem seu final de vida: “No fundo, o Amor é o único sentimento digno de Deus. Converter todas as coisas em Amor supõe já uma grande dose de santidade.”

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 12

A 1 de novembro de 2002, em consequência de infeções múltiplas após transplante de medula, falecia o jovem argentino GUILLERMO MUZZIO.GUILLERMO MUZZIO Cópia
Nascido a 25 de fevereiro de 1972, Willy – assim chamado pelos amigos –, desde cedo frequentou a Igreja. Aos 24 anos, encontra sua vocação: ingressa no seminário. Mas no final da década de 90, é-lhe diagnosticado uma enfermidade terminal.
Apesar disso, procurou viver a vida de seminário sem qualquer tipo de exceção, vivendo a doença com o seu habitual sorriso, sem dramatizar nem vitimizar-se. Assim viveu os três anos de tratamento. Continuou a prestar assistência apostólica a comunidades que lhe foram confiadas, marcando-as pelo seu testemunho alegre e pelo amor ao próximo. Quem o recorda lembra a sua profundidade espiritual e humildade, assim como a sua amizade fácil e leal. Como confidenciou ao pai, aspirava à santidade.
Antes da sua entrada no seminário, uma experiência de missão foi decisiva vocacionalmente. Aí aprendeu a misericórdia e o amor aos mais pobres.
Já no seminário, dedicou-se à oração pessoal com Deus, ao estudo (como forma de preparar-se para servir bem o povo de Deus) e à vida comunitária (como exercício concreto de caridade). Dizia ele: “Cada manhã, faço promessa de viver em santidade”.

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 13

A 1 de novembro de 1947, morria envenenado por uma agente soviética, o jovem bispo ucraniano THEODORE ROMZA.teodor romza Cópia
Theodore viveu quase toda a sua vida na região dos Cárpatos (atual Ucrânia), mas num período tão conturbado da história que mudou por três vezes de nacionalidade. Nascido como súbito da dupla monarquia austro-húngara, foi ordenado padre na qualidade de cidadão checoslovaco, ordenado bispo como húngaro, antes de se tornar, por fim, cidadão soviético.
Dinâmico, espontâneo, mas reservado, a sua inteligência permitiu-lhe destacar-se nos estudos. Usa todas as suas qualidades ao serviço do seu desejo: ser padre greco-católico. Depois dos estudos feitos em Roma, regressa ao seu país e assume a paroquialidade de comunidades rurais. Aí exerce seu ministério em condições difíceis, por vezes perigosas, por causa do antagonismo entre católicos e ortodoxos. Experimenta a hostilidade e desprezo dos fiéis, a pobreza e solidão, mas sente-se feliz. Não se poupa em visitar as comunidades, mesmo que distantes e isoladas. Visita os doentes e os mais necessitados. Seus paroquianos guardaram dele a imagem de um padre piedoso, dedicado e corajoso, privando-se do necessário para socorrer os outros.
Em 1939, o território passa da administração checa para o controlo húngaro. O novo bispo pede-lhe que assuma a missão de professor e diretor espiritual no seminário de Uzgorod. Excelente pedagogo, é respeitado pelos seminaristas que apreciam seu humor e franqueza. É um modelo de padre: exigente, bom e aberto ao diálogo, de fé e humildade profundas e com grande amor à eucaristia.
Já em 1943, o exército vermelho russo ocupa o território, coincidindo com a morte do bispo. Apesar da sua idade, 34 anos, Theodore Romza é escolhido como seu sucessor, por causa da sua energia, atitude frontal ao encarar as situações com firmeza e paciência. Entretanto, a Ucrânia é anexada, iniciando-se uma ortodoxização forçada, com o objetivo de destruir a Igreja greco-católica. Theodore, apoiado pela população, resiste e enfrenta o regime, apesar das intimidações e ameaças. A sua atividade, na defesa do clero e formação de seminaristas, indispõe Moscovo. A sua eliminação é decretada. Mandatado por Khruschev, então responsável soviético na Ucrânia, seu atrelado é abalroado por um camião militar. Os soldados espancaram-no a ele e aos seus companheiros, abandonando-os inconscientes. Sobrevivente, é levado para um hospital onde, acaba envenenado, com a conivência do diretor pró-soviético. Tinha 36 anos.
Theodore Romza foi beatificado a 27 de junho de 2001, com outros mártires greco-católicos da Ucrânia.

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 14

A 3 de novembro de 1963, nascia OLGA BEJANO DOMÍNGUEZ.OLGA BEJANO DOMINGUEZ
A sua vida constitui uma extraordinária lição de confiança, resiliência e luta.
Com 23 anos, contraiu uma enfermidade neuromuscular que deixou paralisado a quase totalidade do seu corpo. Durante 22 anos não pôde falar, nem ver. Respirava artificialmente e alimentava-se através de uma sonda. Por si mesma, só conseguia ouvir, pensar e sentir.
No entanto, encontrou um método para comunicar com o mundo: fazendo uns rabiscos, aparentemente incompreensíveis, com os impulsos do seu joelho, e que as suas enfermeiras aprenderam a traduzir lentamente em abecedário. Graças a este original sistema, Olga publicou com grande êxito quatro livros: "Voz de Papel", "Alma de cor salmão", "Os Rabiscos de Deus” e “Asas quebradas”. Este último, precisamente, era una lúcida reflexão sobre a grandeza e os limites do ser humano e, especialmente, sobre a capacidade de superação das pessoas.
Olga começou a ser mais conhecida quando o filme “Mar Adentro”, protagonizado por Javier Bardem no papel do tetraplégico Ramón Sampedro, consagrou a eutanásia como forma de acabar com o sofrimento. Olga e Ramón mantiveram uma breve correspondência. Desafiou-o a lutar não para morrer, mas para viver e conseguir melhores condições de vida e direitos devidos a pessoas descapacitadas.
A sua força, encontrou-a na fé. Quando lhe perguntavam quem mandava mais, se ela ou a doença, respondia inequivocadamente: “Eu, claro. A alma é mais forte que o corpo!”
Na última entrevista que concedeu, Olga referia: “Para mim a enfermidade não é nenhum presente. Os seres humanos são matéria e alma. A matéria pode deteriorar-se por muitas circunstâncias e se aceitamos a situação de forma positiva, pode ser uma oportunidade para madurar e crescer como pessoa humana e espiritualmente. Deus dá-me outro tipo de presentes pondo na minha vida uma equipa médica de cuidados paliativos fabulosa, um montão de amigos que sempre estão quando os necessito, minha família, etc.”
Como mensagem a todos, deixou estas palavras: “Desejaria gritar que valorizem a sua vida, que a saibam viver de uma forma sã, que vivam em paz e que saibam ser felizes com o que são e com o que têm. Que aprendam a ser felizes e assim poderão tornar felizes os outros. Não se pode dar o que não se tem.”
Quando, um dia lhe perguntaram – Que te faz viver, Olga? –, uma resposta simples: “Deus. Tudo o que sou, recebi-o d’Ele”. Ou ainda: Olga, és feliz? Categoricamente respondia: “Claro que sou feliz!”

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 15

Faria hoje 40 anos, CLARE CROCKETT (1982 –2016).CLARE CROCKETT Cópia
Nascida em Derry, na Irlanda do Norte, no violento contexto que separava os unionistas pró-britânicos e nacionalistas irlandeses. Apesar da família católica e de alguma prática religiosa, Clare vivia alheada das coisas de Deus. “Cabra louca” e sempre pronta para o gracejo, sonhava ser atriz de Hollywood. E tinha talento para isso. Com 15 anos, foi apresentadora de TV, num programa infantil. Posteriormente, participou num filme. Entretanto, com as amigas, inicia-se à vida noturna. Fuma e bebe, desregradamente.
Ocorre, então, um acaso que lhe muda a vida. Induzida por uma amiga, viajou para a Espanha, pensando em Ibiza, praia e festas. Afinal, era um retiro espiritual, durante a Semana Santa, no interior do país. Na sexta-feira da Paixão, ao beijar a cruz, tem uma iluminação interior. “Morri por ti. Que farás tu por Mim?” Cristo crucificado tinha dado a vida por ela, pelos seus pecados, vaidades e infidelidades… Percebeu que nada consolaria Deus, senão retribuindo-Lhe a sua existência. Regressada à Irlanda e à sua antiga vida, Clare experimenta o vazio. Nem festas, nem a realização do seu sonho em ser atriz a preenchem.
Com 18 anos, sem saber falar castelhano, volta definitivamente para Espanha, onde ingressa nas Siervas del Hogar de la Madre. Começa uma dura e intensa transformação interior. Sem perder a efusiva alegria e sua capacidade de entusiasmar a todos, abdica de ser o centro das atenções, pondo-se totalmente ao serviço de Deus e dos outros. Trabalhando especialmente a obediência e a humildade, Clare dedica-se a todas as tarefas e missões que lhe são pedidas: primeiro em Espanha, depois nos Estados Unidos e, por fim, no Equador. Aí se gasta pelos mais jovens e desfavorecidos, até ao fatídico 16 de abril de 2016. Um terramoto faz desabar a casa onde se encontrava, matando-a, juntamente com 5 jovens. Tinha 33 anos.
Dizia ela: “O que me preocupa não é morrer jovem. O que preocupa é morrer sem servir, sem me encontrar ao serviço, sem dar tudo de mim, já que foi para isso que o Senhor me chamou.”

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 16

Nesta data, no ano de 1939, morria WALTER ELIAS CHANGO RONDEAU, com 18 anos.WALTER CHANGO SIERVO URUGUAY PD Cópia
Nascido em 1921, nos arredores de Montevideu, capital do Uruguai, Walter tem uma juventude normal. Ama a natureza, onde se sente livre: aí gosta de acampar, fazer caminhadas, jogar à bola com os companheiros. Aspira à liberdade. Simultaneamente, procura o seu caminho. Sonha fundar uma família, honesta e cristã, como a dos seus pais. Mas tem tempo. Compromete-se na paróquia, primeiro como catequista, depois em associações caritativas, com especial predileção pelos pobres: “O que dás a um pobre, é a Cristo que dás!”
Aos 17 anos, acabados os estudos, encontra trabalho onde as suas qualidades se destacam: consciencioso, afável, generoso, cheio de energia, vitalidade e alegria. Jovem de iniciativas, promove festas onde não falta, no final, um tempo de oração: “Não temos direito a ser medíocres.” “Não basta que eu seja bom, é necessário que trabalhe para que sejam bons os meus companheiros. Não basta que eu seja honrado, também devo desejar a honradez dos meus companheiros. Nada de bom se faz sem sacrifício.”
A eucaristia reveste-se, para ele, de uma grande importância: “A missa do domingo deve influir, modificar, iluminar, transformar toda a nossa vida durante a semana inteira.” Intuição surpreendente para um leigo nessa época. Pela similitude de suas vidas, é agora chamado de “Carlo Acutis uruguaio”.
Pouco depois, toma conhecimento que é atingido de tuberculose intestinal. Tratamentos e operações nada resolverão. Apesar das dores e cirurgias, guarda o bom humor e encoraja os seus familiares e amigos. Mantém a serenidade: “Não estamos destinados a esta terra, mas a Deus. É para Ele que devemos ir.”
“Morro na paz.” São as suas últimas palavras, falecendo com um sorriso nos lábios.
A sua causa de beatificação foi introduzida em 2001.

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PRIMAVERA(s) de DEUS – 17

A 19 de novembro de 1983, morria BASILE NASSA OUEDRAOGO.
No funeral deste jovem do alto-Volta (atual Burkina-Faso),BASILE NASSA OUEDRAOGO Cópia concelebraram 1 cardeal, 2 bispos e 35 padres.
Basile sentira-se interpelado pelo Evangelho de Jesus. Mas uma forte crise de fé fá-lo perder o gosto pela oração e cai na descrença total. Pensa deixar tudo e embarcar para Moscovo para aí frequentar um curso de propaganda marxista. Mas hesita. Pede ajuda para melhor discernir.
Meditando na Carta de S. Paulo aos Romanos desfaz as suas dúvidas. Sente-se chamado ao sacerdócio. Será testemunha da Misericórdia. Dedica-se particularmente a uma pequena comunidade que acolhe pessoas com deficiências. Alguém disse dele: “Basile escuta as nossas alegrias, as nossas dores, o nosso desejo de sermos acompanhados.” Estende também a sua generosidade à prisão, ao hospital e a uma associação de solidariedade com os mais desfavorecidos. O próprio confessou: “O Senhor faz-me compreender cada vez melhor que me chama a uma vida de pobreza e que me pede para consagrar toda a minha vida aos pobres.”
Em setembro de 1981 entra no seminário. Em outubro do ano seguinte é-lhe detetada uma grave infeção renal. O diagnóstico é impiedoso: até ao final da vida, tem de se submeter a diálise. Como o seu país não dá resposta tem de decidir entre partir para França, sem regresso, ou ficar, para morrer. Escolhe ficar. No hospital, passa seus últimos dias totalmente entregue à oração e à atenção pelos outros. “Estava preocupado com a saúde dos seus companheiros doentes e rezava por eles. Permaneceu delicado e atento a todos os que o rodeavam até ao fim.” Outro testemunho disse dele: “Basile ensinou-nos a rezar. Rezar sempre sobretudo diante da morte. Com ele, descobri também que a morte, na fé e na oração, não é um drama. Basile não temia a morte.”

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