Síntese Teológica

Jo 15, 9-17: uma proposta de leitura.

Na dissertação de mestrado que intitulei de "Permanecereis no meu amor - Uma leitura exegético-teológica de Jo 15, 9-17",JP tese apresentamos uma proposta de leitura que não pretende ser exaustiva desta perícope. Afinal, a riqueza dos textos evangélicos é sempre inesgotável. Debruçamo-nos sobre alguns aspetos que consideramos de maior relevância. São eles: a permanência no amor pelo cumprimento dos mandamentos, onde urge a temática do mandamento novo; e a participação dos discípulos no amor trinitário, com os frutos que daí brotam.

 Do que escrevemos sobre isto, apraz-nos dizer sinteticamente o seguinte:

O apelo a permanecer no amor de Jesus é fundado no seu amor pelos seus que, por sua vez, se funda no amor que o Pai tem pelo Filho. A utilização abrupta do imperativo aoristo, no apelo de Jesus, reforça o intuito exortativo aos discípulos para que entrem no seu amor e permaneçam nele, permanência esta que não se esgota num sentido simplesmente local (temporal e geográfico), mas abrange um sentido profundo de comunhão pessoal e transcendente. Permanecer em Jesus implica ficar intimamente unido a Ele, escutando e conhecendo a sua Palavra, instalando-se nela e dela tirando a força para a vida; morar com Ele, aprendendo a sua forma de viver e atuar, estar ininterruptamente e reciprocamente ligado a Ele pela fé e pela oração, como os ramos da videira à cepa, pois só desse modo é possível produzir frutos que permaneçam imutáveis. Recebendo de Jesus e da sua Palavra a seiva que corre na vida do discípulo, os frutos serão idênticos aos que Ele gerou (Jo 14, 12). No dizer de Renzo Infante, «como a seiva flui da videira para os ramos, da mesma maneira o amor de Jesus deve fluir nos discípulos, desse amor recebem a vida e dão fruto. Para ter seiva, o discípulo deve permanecer persistentemente unido a Cristo, fonte do amor e da vida». De facto, para João, é pela prática do mandamento novo do amor que se devem reconhecer os discípulos de Jesus Cristo (Jo 13, 35). Por isso, é compreensível a insistência na temática que não se cinge apenas ao Evangelho, mas corre também na seiva das cartas a ele atribuídas.

O amor de que nos fala o Quarto Evangelho é o que genericamente se pode entender por amor cristão que nos ensinou Jesus Cristo: um sentimento do espírito e não mera sensação do corpo; caridade e amor fraterno. No dizer de Antonio García-Moreno, «um sentimento que se traduz em algo concreto em favor da pessoa querida, um afeto provado mediante o culto e a fidelidade quando se trata de Deus, ou de um determinado sacrifício pessoal em favor da pessoa amada». Ou ainda, um amor maternal, todo-ternura e inteligência compreensiva; uma comunhão com aquele que se ama, desejando-lhe o bem. Este amor há-de ser vivido agora e sempre, tal como o sugerem o conjuntivo presente e o indicativo aoristo com que o verbo AGAPAO (amor) é conjugado, no versículo 12.

Ora, na perícope em estudo, constatamos também que Jesus eleva os discípulos da categoria de servos à de amigos, ao dar-lhes a conhecer tudo aquilo que ouviu do Pai. Jesus dá aos discípulos, por meio da palavra que recebeu do Pai, o acesso a Deus. Partilhando com os discípulos a mensagem que recebeu do Pai, Jesus partilha o Pai com eles, tornando-os seus irmãos (Jo 20, 17) e, desta forma, cumpre o provérbio antigo que diz que os amigos têm tudo em comum. Não são mais servos, mas amigos, isto é, no dizer de Francis Moloney «companheiros íntimos e iguais a Jesus, que os ama sem limite algum». Ser amigo de Jesus é indistinguível de permanecer no seu amor e isto concretiza-se guardando os seus mandamentos, isto é, conhecendo-os, compreendendo-os e cumprindo-os. Estes mandamentos são dados por Jesus aos discípulos, da mesma forma que os dons salvíficos da água viva, do pão da vida, da palavra de Deus… A discordância entre o plural utilizado no v. 10 («se guardardes os meus mandamentos») e o singular utilizado no v. 12 («é este o um mandamento») sugere que todas as recomendações que Jesus faz aos discípulos se sintetizam no amor mútuo.

No Quarto Evangelho, sobressai a ideia de que a vivência do amor fraterno consiste na participação do amor divino que une o Pai e o Filho. A prática do amor mútuo entre os crentes é distintivo da sua nova identidade de discípulos (Jo 13, 35), ao mesmo tempo que lhes garante a presença das pessoas divinas nas suas vidas (Jo 14, 23) e o dom da vida eterna (Jo 17, 3), porque são fiéis à vida divina neles depositada, assemelhando-se Àquele que os elegeu. João sugere também que a prática do amor mútuo entre os discípulos de Jesus apresenta-os diante dos homens como membros da família divina (1Jo 3, 1). A forma da vivência do amor entre os cristãos encontra em Jesus o paradigma e apelo.

Finalmente, conscientes de que o paradigma é Cristo e também dos limites humanos em alcançar o modelo ideal que nos é proposto, lembramos a necessidade da ascese que cada discípulo há-de empreender, num empenho contínuo para aproximar-se do Mestre.

João Miguel Pereira

(Seminarista, Mestre em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa)