Primavera 60 - KARL LEISNER

KARL LEISNER é o único sacerdote ordenado num campo de concentração.KARL LEISNER 2
É, também, um dos religiosos mais conhecidos, entre os 2720, que passaram pelo campo de Dachau.
A 17 de dezembro de 1944, num bloco adaptado em capela, vestido com a roupa às riscas própria dos reclusos, Karl é secretamente ordenado pelo bispo francês de Clermont-Ferrand, Gabriel Piguet, também ele preso. A autorização do bispo da sua diocese, Clemens von Gallen, o “Leão de Munster” (assim chamado pela sua firme crítica contra o nazismo) fora obtida. Um detido confecionara um báculo (posteriormente usado por João Paulo II, na cerimónia da beatificação de Karl). Outros fabricaram uma mitra, um anel… tudo de forma clandestina. No campo, uma tenda vende, para o exterior, flores cultivadas pelos presos. Inma, uma jovem e assídua compradora, aproveita para fazer chegar, às mãos dos sacerdotes concentracionários, todo o necessário para a cerimónia: documento da autorização, óleos para a consagração, ritual, vinho e até um paramento.
Karl está feliz, mas esgotado pelas condições de vida e sua frágil saúde. Só conseguirá celebrar a missa solene dez dias depois. Será a sua primeira… e última.
Mas a história começa muito antes.

Nasce a 28 de fevereiro de 1915, perto de Munique. É o mais velho de cinco irmãos, de uma família muito cristã. No liceu que frequenta, adere ao movimento da juventude católica. É nele que faz a experiência da camaradagem, da Bíblia e da eucaristia. Sua vida interior desenvolve-se: Cristo transforma-se no guia da sua jovem vida. Essa formação juntamente com a espiritualidade de Schoenstatt, da qual se aproximou, evitam-lhe tornar-se escravo da ideologia do IIIº Reich.
Já na universidade, deseja ser padre. O bispo confia-lhe a responsabilidade da juventude diocesana. “Senhor, com a tua graça aceito esta difícil tarefa. Guia-me até à tua luz. Prometo-Te, solenemente: quero ser teu instrumento. A partir de hoje, toda a minha vida Te pertence.” De facto, Karl era um líder nato, com a sua personalidade livre e autêntica. Tal não passou despercebido aos olhos da Gestapo que o via como um incómodo, um empecilho na difusão das ideias nazis entre os jovens. Entretanto, é ordenado diácono, em março 1939. Alguns meses depois, prevê receber o sacerdócio. Porém, as circunstâncias o impedirão.
Durante o serviço de trabalho obrigatório, imposto pelo regime nazi, contrai a tuberculose e vê-se obrigado a convalescer durante meses. É nessa condição que é preso. A guerra fora declarada. A vigilância e perseguição também. A causa da detenção é uma simples expressão, proferida ao saber do atentado falhado contra Hitler: “Que pena!” É, primeiramente, enviado para Sachsenhausen e, depois, para Dachau, em dezembro de 1940.
Aí, sofre uma forte recaída na tuberculose, com hemorragias nos pulmões. Apesar da sua situação e das péssimas condições de vida, conserva um espírito saudável. Nas cartas que consegue enviar aos pais, despede-se sempre com a frase “sempre na alegria”, em vez da assinatura. É transferido para a enfermaria, onde são empilhados mais de uma centena de tuberculosos, na espera da morte. Karl encontra forças na Palavra de Deus e na comunhão eucarística que é trazida secretamente aos moribundos. O sonho da ordenação sacerdotal parece irremediavelmente perdido. Até que a chegada de um novo detido vai fazer renascer a esperança: um bispo, habilitado para lhe conferir o sacramento da ordem.
Em Dachau, onde se pretendia humilhar o sacerdócio e a fé cristã, especialmente a católica, aconteceu o milagre de um novo padre. Karl esperou perto de cinco anos por esse momento. Celebra sua única eucaristia no dia de santo Estêvão (26 de dezembro), primeiro mártir de Cristo.
Sobrevive até a libertação do campo. Mas a fragilidade da saúde não lhe permite saborear a liberdade. Morre esgotado, em 12 de agosto de 1945, mas em paz. “Quiseram matar nossa alma. Graças a Ti Senhor, pois nos salvaste pelo teu Reino de Amor e de dignidade humana! Senhor, faz que Te ame sempre mais. Amor e penitência. Obrigado por tudo. Perdoa minhas debilidades”.
Em 1996, no Estádio Olímpico de Berlim lotado, será beatificado por S. João Paulo II.

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